Histórias contadas por Janelas.

Por , 1 Comentario
Compartilhar Facebook Compartilhar Twitter


Sonhei. Sonhei como fazia tempo que não. E o que eu lembro, bom, o que eu lembro ainda faz sentir-me triste, vazio. Mas gosto de lembrar, pois é daquele tipo de sonho que vem como se quisesse te mostrar uma verdade, te enviar uma mensagem, ou te avisar. Ou pelo menos te fazer ver a beleza em uma triste história sendo contada.

Já era tarde, disso eu lembro. Estávamos em um carro, vidros fechados, carícias. Dirigia, e parecia que sabia para onde estávamos indo. Mas eu não estava preocupado quanto ao destino daquele passeio. Eu estava acompanhado, e confiava. Chegamos, e era escuro, entre as árvores, e ainda estávamos rindo porque sabíamos que era um local propício para aproveitarmos uma liberdade que não se poderia ter por aí, onde quiséssemos, como se pudéssemos.

Haviam outros carros, muitos, como se todos precisassem de um momento à sós. Estacionou, e para minha admiração, desceu do carro. Andou por um instante, e voltou, e a conversa havia mudado de tom. Não sei por que. Como se um casal precisasse de motivos para brigar nas horas mais inconvenientes. Discutimos, e depois arrancou com o carro. Dirigia, e discutíamos. O que eu estava fazendo ali, naquele lugar que eu nem sabia onde ficava, com aquela pessoa que não se tocava que o que eu queria mesmo, naquela hora, não era conversar? Muitas vezes as palavras não cabiam em uma conversa.

No fervor do desentendimento, parou e eu saí do carro. Perguntou se eu não iria voltar, como quem realmente só perguntava por educação, resquício de responsabilidade, sei lá. Eu fechei a porta em resposta, e saí pelo lugar. Daí, partiu, e eu estava em um lugar que realmente não conhecia; não tinha telefone celular, nem dinheiro, nem cartões de crédito, em um lugar que parecia um vilarejo. Muitas pessoas entre as ruelas simples. Parecia uma feira, com tendas. Paredes de barro e madeira. Eu estava imundo, e por uma noite fiquei assim, na rua, pensando como alguém que dizia gostar de mim deixou-me à sorte em um momento tão delicado.

O dia, que amanheceu, me fez forte. Não sei quantos dias já se tinham passado, mas eu já havia estabelecido contato com a família, e agora tinha um teto, algo como uma pousada ou república, e ao sair para caminhar pela manhã, na rua de feira, observei na primeira janela de uma vila baixa um jovem casal que se amava, em ato, e o quanto suas verdades, naquele momento, eram simples e mudas. Natural, sem expectativas além daquelas pelas quais o corpo mesmo responde. Sem parar de caminhar, observei na próxima janela o mesmo casal...

Ele, de camiseta, lendo na sala, e ela na cozinha, com uma camisa que deveria ser dele pelo tamanho. Eles riam um do outro. Na janela seguinte, enquanto eu passava, vi o mesmo casal, mais maduros, em uma varanda, com cabelos mais comportados e roupas mais ajustadas, lendo, os dois, livros. E, numa outra cena, da janela seguinte, na sala, aproveitavam o tempo livro frente à TV, juntos, de roupões, com as marcas de uma idade experiente. O tempo parecia ter parado pra mim, quando percebi, na ultima janela, a última cena: o mesmo casal, naquela mesma cama, juntos, nus, abraçados, mas agora idosos e... Mortos.

Nesta hora, eu lembro, eu estava chorando com o fim da história. Eu conseguia sentir a verdade daquelas pessoas, frente a uma vida juntos, com um fim de um ciclo natural. Natural. Natural como as lágrimas que caiam enquanto o tempo havia parado pra mim, e enquanto eu assistia uma história sendo contada por janelas. No escuro, ouvi-me gemendo e chorando, como num encontro com meus maiores medos. Uma sensação de culpa misturava-se com outra de quem acabara de ser estuprado, sentindo-me usado, um lixo, jogado fora. Como se tivera perdido meu tempo diante de tantas outras discussões, carros, noites nas ruas, por causa de outros... caras.

... e a cidade voltava de um efeito embaçado, eu em pedaços, e vivo. Eu estava vivo, ou era só um sonho? Quando acordei, eu estava vivo. Vivo e chorando.

Nota do Autor: Sonho que tive na madrugada do dia 24/25 de Março de 2012, e que só pus em papel no dia 27. Acho que se perderam, alguns detalhes, quando o sentimento já tinha esfriado. Mas este foi um sonho bem distinto, triste e bonito, como começo a dizer lá em cima. Mas é isso aí.

1 comentários:

    COMENTÁRIOS AGORA